Uma pesquisa desenvolvida junto ao Programa de Pós-graduação em Animais Selvagens, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade Estadual Paulista (FMVZ-Unesp), câmpus de Botucatu, busca descobrir o papel epidemiológico da onça-pintada no Pantanal e sua relação com a vida selvagem, os animais domésticos e a saúde pública.

Desenvolvido pelo médico-veterinário uruguaio Paul Raad, sob a orientação do professor Felipe Fornazari, do Departamento de Produção Animal e Medicina Veterinária Preventiva da FMVZ, o estudo é conduzido principalmente na área da Pousada Piuval, localizada no Pantanal a 8km da cidade de Poconé, no Mato Grosso. A área sofre com a pressão antrópica, especialmente em razão da pecuária e do garimpo, e é considerada um “hotspot de biodiversidade”, ou seja, uma área com grande biodiversidade, rica em espécies endêmicas, e que sofre um alto grau de ameaça. Os hotspots de biodiversidade são locais que necessitam de atenção urgente, sendo consideradas prioritárias nos programas de conservação.

A área abrangida pelo trabalho de Raad abriga uma grande população de onças – e outras espécies icônicas – e pode ser considerada um santuário e um tesouro para a conservação. No entanto, a presença de gado tornou-se a maior ameaça a esse equilíbrio, afetando especialmente a presença das onças. Além da preservação da biodiversidade, os cuidados com o felino podem refletir diretamente na economia local. Um estudo de 2017, realizado pelo pesquisador Fernando Tortato, da organização não-governamental Panthera Brasil, citado no portal de notícias Olhar Conceito, estima que o ecoturismo baseado na onça-pintada movimenta 6,8 milhões de dólares por ano.

Sabe-se que a onça-pintada (Panthera onca) desempenha importante papel ecológico, controlando a população de herbívoros e, consequentemente, colaborando com o equilíbrio da biodioversidade dos biomas em que vive. Os desequilíbrios na população desse predador podem causar problemas ecológicos na cadeia alimentar conhecida como “cascata trófica”, ou seja, a propagação do efeito de uma perturbação em um determinado nível para os demais níveis de uma cadeia ou teia alimentar. “Por esse motivo, o principal objetivo da pesquisa é fazer um levantamento populacional das onças que habitam a região, bem como identificar parasitas que podem ser compartilhados entre estes felinos e outros animais (tanto domésticos como silvestres), e até mesmo com seres humanos. Paralelamente são realizadas atividades de educação ambiental que destacam a importância ecológica da onça-pintada no bioma Pantanal, trabalhando junto à comunidade local, fazendeiros e turistas”, explica Raad.

Desde o início do projeto de pesquisa, em junho de 2022, Raad buscou uma aproximação com diferentes proprietários de áreas próximas à Pousada Piuval, incluindo pousadas de ecoturismo e fazendas de gado, para convidá-los a integrar uma área delimitada de estudo que possibilitou criar um corredor ecológico de 30 mil hectares para a instalação de diferentes armadilhas fotográficas. Da mesma forma, uma grade de 52 armadilhas fotográficas foi instalada seguindo um padrão e logística previamente definidos para conhecer a densidade populacional e abundância das espécies nesse corredor. As câmeras foram doadas por turistas que assistiram às palestras que Raad ministra na Pousada Piuval. Além das imagens, amostras fecais também são coletadas para determinar a dieta dos indivíduos.

Onça-pintada fotografada no local do estudo (Foto: reprodução/Raul Raad)

Pesquisa inovadora?

O estudo é pioneiro em diversos aspectos. “Essa metodologia nunca foi aplicada em estudos de saúde da onça-pintada. Estamos trabalhando com uma grande amostragem de fezes de indivíduos de vida livre e com o diagnóstico de diversos parasitas através de técnicas moleculares de diagnóstico”, explica o pós-graduando. “É o primeiro trabalho em uma área onde tais informações são desconhecidas e ele vai nos fornecer novas estatísticas sobre a saúde do ambiente e da espécie”.

Outro destaque do trabalho é sua abrangência multiprofissional e territorial. “O Paul é um aluno do Uruguai, faz pós-graduação em Botucatu e trabalha no Pantanal em parceria com instituições internacionais. São médicos veterinários, biólogos e outros profissionais de diversas localidades atuando em diversas áreas para a conservação das onças-pintadas. É um trabalho abrangente em vários aspectos que mostra o crescimento do Programa de Pós-graduação em Animais Silvestres da FMVZ”, explica o professor Felipe Fornazari, orientador do curso de mestrado de Paul.   

A ideia da pesquisa nasceu a partir da atuação profissional de Paul Raad. Ele trabalhava como voluntário na Pousada Piuval, coordenando uma base de pesquisa associada ao projeto Jaguar ID Project, uma organização sem fins lucrativos que objetiva construir um banco de dados sobre as onças na região norte do Pantanal. Dentre suas tarefas estava fazer a identificação dos indivíduos da região e ministrar palestras educativas sobre a espécie para guias e turistas. Imerso nessa área, Raad sentiu falta das informações que sua pesquisa visa obter e começou a desenvolver seu projeto de mestrado junto à FMVZ. A partir de 2023, Raad passou a integrar a Diretoria do Jaguar ID Project como vice-presidente, convidado pela fundadora da organização, a bióloga norte-americana Abbigail Martin.

O pós-graduando acredita que os dados obtidos pelo seu trabalho podem auxilar futuros pesquisadores do tema, o Jaguar ID Project e, inclusive, a Pousada Piuval. “O estudo confere credibilidade e dá uma melhor imagem ao serviço que prestam aos seus turistas, na sua maioria fotógrafos e amantes da vida selvagem. Por outro lado, os proprietários da fazenda possuem cerca de duas mil cabeças de gado, por isso estamos desenvolvendo estratégias de manejo para reduzir a perda de animais por onças e depois aplicar nas fazendas vizinhas, que tomarão Piuval como modelo e exemplo de empresa sustentável”.

Em razão da sua relevância e ineditismo, mesmo não concluído, o trabalho já foi objeto de matérias em alguns veículos de comunicação, inclusive pela agência de notícias internacional Mongabay, especializada em temas como conservação, meio ambiente e florestas. “Mongabay é um dos sites de notícias sobre conservação mais importantes do mundo hoje e poder publicar nosso trabalho é um grande orgulho, tanto para Piuval que trabalha com ecoturismo e pecuária, quanto para Jaguar ID Project e para mim como pesquisador. Todos somos beneficiados e trabalhamos juntos pelo mesmo objetivo, que é proteger a onça-pintada e o Pantanal”. Confira a reportagem do Mongabay aqui.  

Atualmente, o trabalho está na fase de coleta e processamento de dados. Todo o material coletado está sendo enviado para os laboratórios da FMVZ, em Botucatu. “Em relação à parte epidemiológica, os dados amostrais ainda estão em análise. Em relação à população de onças-pintadas, posso dizer que na área da Piuval existem nove indivíduos identificados, o que mostra uma área rica para estudar a espécie e obter dados valiosos sobre seu estado de saúde e sua relação com outras espécies”, comenta Raad, que espera defender seu mestrado e publicar a dissertação em 2024. Sua intenção é continuar seus estudos num futuro doutorado. “Ainda há muito a descobrir e muito a publicar para o bem da espécie e do Pantanal”.

Fonte: AI, adaptado pela equipe Cães&Gatos VET FOOD.

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