Cláudia Guimarães, da redação

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Você tem medo de algum animal? Já se sentiu desconfortável o imaginando muito próximo a você ou, então, tem um relato traumático que possivelmente justifique certa aflição? Dentre a lista de medos que podem acometer nós, seres humanos, está a fobia animal.

Mas, antes de entender este problema, a psicanalista Laís Bonvino destaca que, primeiramente, é importante diferenciarmos as fobias dos medos. “O medo é inerente ao ser humano, sentimos medo quando estamos ameaçados por alguma coisa ou situação. O medo, normalmente, passa quando nos afastamos do objeto ao qual direcionamos essa sensação, é natural e não nos deixa em alerta quando não estamos ‘em risco’.  A fobia é diferente: ela é intensa, ampliada e, em termos comuns, pode ser considerada ‘irracional’”, explica.

Isso porque, segundo a profissional, em muitos momentos, o objeto fóbico, ou seja, o objeto ao qual a fobia é direcionada, nem sempre é, realmente, ameaçador. “As fobias são fontes de muito sofrimento e, muitas vezes, atrapalham a pessoa, mesmo quando não estão próximas ao objeto ou situação do qual ela tem medo. É importante ressaltar, também, que as fobias podem ter intensidades diferentes para as pessoas, de leve a grave”, menciona.

De acordo com Laís, as fobias não têm uma única causa, sendo sua origem plural. “Para a Psicanálise, a primeira origem que me vem à mente é por meio da simbolização e deslocamento, representada por um famoso caso estudado por Freud conhecido como ‘O caso do pequeno Hans’. Em resumo, o menino tinha fobia de cavalos e foi entendido que ele deslocou aos cavalos o medo que sentia do pai. Basicamente, é o deslocamento da angústia de uma coisa ou situação para um outro objeto”, discorre.

Além disso, a psicanalista afirma que é possível citar uma fobia que é quase aprendida. “Quando crescemos com alguém que tem medo de algo, provavelmente, vamos aprender que aquele objeto ou situação são perigosos, desencadeando uma fobia sem uma origem específica. Ainda falando sobre a criação, também podemos desencadear fobias pela introjeção do medo dos pais que aprendemos por meio dos conselhos que eles mesmos nos deram. Provavelmente, escutamos coisas como, por exemplo, ‘fica longe desse cachorro que ele é bravo’ ou ‘não atravessa a rua que é perigoso’, entre tantas outras”, cita, mas adiciona que, também, precisamos considerar os eventos traumáticos como origem. “Esses eventos, normalmente, trazem algum dano ou algum medo muito grande. Pode acontecer de pessoas criarem fobia de cachorro, por exemplo, após terem sido mordidas ou perseguidas por um… ou desenvolverem uma fobia de aranhas após encontrar uma em sua cama, coisas nesse sentido”.

Com uma visão diferente, desta vez, da Psicologia, Leticia Mansano Barros, Psicóloga -CRP 06/102644, conta que o medo e a ansiedade fazem parte do mecanismo de preservação da vida, tendo, assim, função protetiva. “É por meio deles que uma pessoa se prepara para a ação ou reação frente a uma situação temerosa. No entanto, as fobias que são os medos acentuados, persistentes e irracionais, não tem razão aparente de um perigo real, por isso, costumam interferir no bem-estar psíquico, limitando ou restringindo a vida de uma pessoa”, relata.

Leticia diz que há fortes indícios de que os seguintes elementos podem ser relevantes para a origem desse medo exacerbado: fatores genéticos; experiências traumáticas em algum período da vida; superstições, crenças e informações erradas que foram verbalizadas ao indivíduo, principalmente, na infância; pensamentos ansiosos, fantasiosos ou catastróficos, que fazem com que a pessoa viva, em sua mente, aspectos amedrontadores que ela mesma cria e alimenta. “O quadro fóbico, normalmente, está presente em pessoas que já são ansiosas, autocríticas, com históricos de insegurança e sensações de incapacidade para enfrentar situações da vida”, insere.

Cobras, aranhas e insetos, normalmente, causam um sentimento de aversão e repulsa, gerando, assim, mais pânico nas pessoas (Foto: reprodução)

Mesma situação, impactos diferentes

A fobia animal, conforme comentado pela psicanalista Laís Bonvino, não apresenta causas diferentes das já descritas pela profissional e ela reforça que, por ser plural, a mesma ocasião pode acontecer com duas pessoas diferentes e apenas uma delas desenvolver a fobia. “Mas, a infância é um período muito crítico não apenas para o desenvolvimento de fobias, mas para o desenvolvimento de uma estrutura psíquica em geral. É na infância que resolvemos nossas fantasias, entendemos quem somos, do que gostamos, compreendemos o que é certo e errado. Então, tudo que acontece na infância pode impactar a vida adulta”, afirma.

Como exemplo trazido da Psicologia, Leticia mostra que uma criança que é mordida por um cão, nesse momento de sua infância, o animal pode lhe parecer assustador, enorme e feroz, o que poderá fazer com que a criança sinta uma sensação de impotência, fraqueza e perigo diante da situação. “Assim, ela pode desenvolver a fobia de cachorro, que poderá persistir até a vida adulta. Além disso, crenças ou superstições verbalizadas a criança pela família, podem desencadear um medo exacerbado, por exemplo: quando a mãe ou alguém próximo diz à criança: ‘Cuidado com o cachorro, ele vai te comer’ ou ‘fique longe dos gatos, eles atacam’”, descreve. 

Segundo a psicóloga, estas colocações podem ser danosas à criança. “Numa situação dessas, a pessoa poderia ter dito à criança para tomar cuidado, pois ela não conhece aquele animal, o que não pode é generalizar e afirmar que o animal pode comê-la ou atacá-la, pois a criança poderá fantasiar essa verbalização e/ou situação em sua mente, desenvolvendo a fobia”, recomenda.

Atenção aos sinais!

As fobias, de animais ou direcionadas a outras coisas, de acordo com Laís, tem sintomas muito parecidos para o fóbico. “As pessoas que têm fobia, normalmente, sentem uma ansiedade muito grande e intensa. Em momentos de crise, podem apresentar crises de pânico, com taquicardia, sudorese, calafrios, desconfortos abdominais e falta de ar. Pessoas com fobia podem sentir essas sensações mesmo a distância dos objetos fóbicos, ou seja, podem sentir medo só de pensar, de ouvir falar ou de ver na televisão, por exemplo”, esclarece.

Além disso, a psicanalista adiciona que, dependendo do grau dessa fobia, as pessoas podem sofrer de ansiedade antecipatória: “Ou seja, criam um sistema de alerta que está sempre ligado para identificar possíveis contatos com o objeto da fobia. Essa ansiedade traz muito sofrimento para a pessoa, pois ela não consegue descansar, ela passa a viver em função da fuga”, compartilha.

Leticia complementa com outros sinais que uma pessoa com fobia animal pode apresentar: “Temor incontrolável em relação a um animal em uma situação que oferece pouco ou nenhum perigo real; o indivíduo reconhece que o medo é ilógico e exagerado, porém, não tem capacidade para controlá-lo ou enfrentá-lo; sensação de que tudo deve ser feito para evitar o animal temido; impossibilidade de levar a vida normalmente por conta de um medo irreal; alto nível de ansiedade, irritabilidade e dificuldade para respirar; hiper vigilância, fadiga muscular, insônia, dentre outros”.

Sobre que espécies animais podem causar fobias frequentes nos humanos, Leticia lista cobras, aranhas e insetos, pois causam um sentimento de aversão e repulsa, gerando, assim, mais pânico nas pessoas. “A hipótese seria que esse medo é uma resposta de sobrevivência, como uma estratégia de defesa humana”, observa.

Laís entende que sofremos o impacto de uma herança evolutiva, então pode ser mais comum termos medo de animais peçonhentos ou “nojentos” por um simples instinto de proteção. “Porém, quando falamos em fobias, é importante lembrar que elas não seguem um padrão lógico e racional”, salienta.

Em casos de fobias, acompanhamento psicoterápico é indicado para que a pessoa possa entender as raízes ou causas centrais de seus medos (Foto: reprodução)

Tratando o problema

A primeira medida que deve ser tomada por alguém com fobia animal – ou qualquer outra -, conforme exposto por Laís, é buscar ajuda de um profissional para compreender suas origens e conseguir manejar da melhor maneira. “O profissional vai auxiliar na acolhida desses medos. Outro ponto importante é que a pessoa que tem fobia costuma ter um comportamento evitante com relação a ela, o que agrava o problema. A cada comportamento evitante, o cérebro comprova o fator de perigo ao invés de invalidá-lo, mantendo o transtorno. Portanto, é importante que essa fobia seja encarada, mas, para isso, é preciso a ajuda de um profissional e claro, muita paciência, para que o transtorno não seja agravado”, orienta. Em alguns casos mais leves, Laís menciona que a racionalização pode ser um mecanismo eficiente.

Para Leticia, o que pode ajudar muito no tratamento das fobias é a aprendizagem de técnicas de relaxamento, com o objetivo de auxiliar o indivíduo a aprender a se acalmar e acreditar no autocontrole, na força que vem de seu interior. “À medida que o indivíduo aprende que pode se acalmar, a fobia já começa a diminuir”, assegura.

A profissional sugere o acompanhamento psicoterápico, nestes casos, para que a pessoa possa se perceber melhor, entender as raízes ou causas centrais de seus medos, para poder ter controle de seus pensamentos catastróficos, a fim de conter a ansiedade e, finalmente, caminhar para a cura de seu quadro fóbico. “Estes sintomas são passíveis de serem controlados e curados, a partir do autoconhecimento, técnicas de respiração, relaxamento, meditação e conscientização do ‘aqui e agora’, além da utilização de técnicas como a dessensibilização do animal temido e controle mental”, indica. Segundo ela, frequentemente, há, também, a necessidade de um acompanhamento psiquiátrico, já que a qualidade de vida de um indivíduo fóbico é bastante comprometida, por este não conseguir controlar o seu medo, por não sentir capacidade de reagir. 

Laís garante que as fobias podem se estabilizar, progredir ou desaparecer, na maioria dos casos, após um trabalho de análise. A profissional ainda deixa um recado para as pessoas que convivem com pessoas com fobias animais ou de qualquer outro gênero: “As fobias, em sua maioria, são irracionais. Então, para quem convive, muitas vezes, pode parecer fácil de manejar, mas, para a pessoa que está numa crise, não é. Então, é muito importante que ela seja respeitada nesses momentos”.

Leticia reforça este pensamento: “É importante que, por mais absurdo que a fobia seja para as pessoas ao redor, a pessoa não deve ser julgada ou criticada. Precisamos respeitar e entender que cada um de nós é formado por características genéticas diferentes, tem uma história de vida específica, assim como, vivências particulares que podem ter sido fatores desencadeantes para a fobia. Sendo assim, não se deve questionar ou fazer piadas e brincadeiras com a situação, mas, sim, apoiar o indivíduo na busca de tratamento psicológico”.





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