Quem nunca ouviu falar sobre a necessidade de fazer os cães enxergarem o humano como “líder da matilha”? Essa ideia de que os cachorros, de forma arquitetada, andam na nossa frente, ao saírem na rua, ou têm comportamentos agressivos e de monta para nos “dominarem” é, na verdade, equivocada. 

Geneticista, consultora em bem-estar e comportamento canino e criadora da metodologia neuro compatível de educação para cães no Brasil, Camilli Chamone lembra que a origem desse entendimento vem de 1970, com a Teoria da Dominância, criada pelo biólogo Lucyan David Mech e retratada na obra “The Wolf”.

Por meio do comportamento de lobos, Mech afirmava que as famílias desses animais eram lideradas por lobos fortes e dominantes (denominados alfas), enquanto os submissos (denominados ômega) os obedeciam. Os alfas, portanto, exerciam controle e ditavam as decisões sobre os outros membros do grupo.

Em 2005, o próprio cientista veio a público desmenti-la. Com o progresso das pesquisas, foi comprovado que a Teoria da Dominância não tem embasamento científico – e mais especificamente com o avanço da neurociência comportamental, a partir do século XXI.  

A geneticista reforça que a neurociência ainda é muito jovem, e pesquisas referentes ao cérebro de animais, mais ainda. “Um estudo que conta muito sobre o cérebro dos cães é de 2017, apenas cinco anos atrás. Mas hoje, em 2023, é preciso trazer conhecimento para casa e mudar a forma de lidar com espécies diferentes da nossa, como os nossos peludos domésticos”, registra Chamone.

Cérebro canino é equivalente ao de uma criança de dois anos, portanto, não pode supor o que o humano sente ou pensa (Foto: reprodução)

Na verdade, a neurociência mostra que os cães não têm habilidades de criar suposições sobre o que o outro está sentindo ou pensando e, a partir daí, bolar planos maquiavélicos. Isso é chamado de Teoria da Mente. 

“Apenas os primatas ditos superiores, como gorilas, chimpanzés e, inclusive humanos, têm essa competência cognitiva. Na prática, isso significa que somente eles são capazes de reconhecer o que o outro pensa e sente. Nenhum outro animal, nem o cachorro, tem desenvolvimento neurológico suficiente para isso”, explica Chamone.

Além disso, os cães, independentemente do tamanho ou raça, têm o desenvolvimento cognitivo e emocional equivalente ao de uma criança de dois anos; ou seja, eles não têm um cérebro desenvolvido, ao ponto de quererem nos dominar, o que invalida, de vez, a Teoria da Dominância. “Eles não interpretam o mundo como nós – por exemplo, ao se olharem no espelho ou verem cenas na televisão, não associam e entendem que são apenas imagens refletidas”, complementa.

Os comportamentos citados no início deste texto, como querer andar na frente do dono, se comportar de forma agressiva ou de fazer monta nos humanos, têm explicação. 

O andar na frente do dono, explica a geneticista, só mostra que esse animal tem hábitos exploratórios, algo totalmente natural de sua natureza. “É comum e saudável querer farejar, cavar, e explorar o ambiente do passeio. Dessa forma, cães podem andar à frente do tutor, ao lado ou atrás – não há relevância alguma nisso”, conta.

Já os comportamentos agressivos e de monta requerem mais cuidado e atenção – e não porque os cães estão querendo nos dominar, mas sim porque, provavelmente, estão em sofrimento.

“A agressividade se torna uma necessidade quando o cachorro se sente em um ambiente ameaçador, no qual a única forma de se defender é mordendo. Se chegou a este ponto, o dono precisa, urgentemente, buscar ajuda profissional, pois além de ter um cãozinho em extremo estresse e sofrimento, pode estar colocando a família em risco”, alerta.

A monta compulsiva, fora do contexto sexual (macho diante de fêmea no cio), é chamada de estereotipia comportamental – ou seja, uma forma que o cão encontra para aliviar a ansiedade que está sentindo. “O mesmo podemos dizer para outros padrões compulsivos, como lambeduras intermináveis, excesso de latidos e comer o seu próprio cocô”, exemplifica.

Entender o comportamento canino à luz da neurociência traz conhecimento e sabedoria. Ela pontua: não faz sentido submetermos nossos peludos a atitudes autoritárias para que nos obedeçam e nos respeitem, sem qualquer embasamento em ciência. 

“Cabe a nós, humanos, usarmos o nosso ‘super cérebro’ evoluído para entendermos a espécie diferente e encantadora que trouxemos para a nossa casa, garantindo o bem-estar e a tranquilidade de todos da família”, finaliza a geneticista.

Fonte: AI, adaptado pela equipe Cães&Gatos.

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