O título deste artigo é, sim, uma tradução do nome do filme que ganhou o Oscar deste ano. Coincidência ou não, ele resume perfeitamente os sentimentos misturados com os quais saio de Austin.

Quem me conhece ou me acompanha aqui já me ouviu falar que eu venho pra cá pra ser tirada do lugar. E mais uma vez o festival me chacoalhou com maestria — e eu agradeço.

Descobri grandes e novas ambições para a humanidade — a mais impactante delas foi a de nos tornarmos uma espécie multiplanetária. Sim, já existem pesquisadores estudando reprodução espacial — porque um dia a Terra ficará pequena pra nós.

Vi palestras que me mostraram o melhor e mais inovador lado da humanidade:

Biotech buscando soluções pra doenças e condições graves, como ELA, Parkinson, e diversos tipos de paralisia.

A ciência se abrindo pra estudos clinicos e experimentos antes vistos como “pouco ortodoxos” com psicodélicos e drogas sintéticas.

Seres humanos incríveis como o chef José Andrés, que podia apenas administrar um conglomerado de marcas mas também leva comida a quem tem fome em zonas de desastres.

Uma discussão importante acontecendo aqui sobre a importância de cuidarmos de nós (pessoas, grupos, sociedade) e das nossas relações. Como disse Esther Perel: não nos esqueçamos de que estamos vivos.

Uma comunidade curiosa pra aprender sobre a única coisa ainda inexorável nas nossas vidas — a morte. E generosa para acolher e suportar quem precisa de apoio quando se vê de frente com ela.

Mas nem só de belezas faz-se um SXSW. Ele também nos aperta. Traz angústia, dor até. Porque a verdade é que a gente ainda tem tanto por fazer, e tão pouco tempo.

A revolução que precisamos ver nos ambientes de trabalho, por exemplo. Tema urgente e importante que foi uma trilha de conteúdo inteira por aqui — com salas assustadoramente pouco frequentadas. Num contexto global de pós-trauma, estresse crônico prolongado e o trabalho híbrido se apresentando como uma realidade ainda sem forma definida, com muitos efeitos colaterais complexos na vida das pessoas, como pode este assunto não ser prioridade nas escolhas de quem vem?

Também tirei os meus óculos cor-de-rosa quando percebi como o assunto da dificuldade econômica global pela qual estamos passando e seus impactos — demissões em larga escala, quebra de bancos no plural, entre outros — praticamente não foram comentados nas palestras por aqui.

E terminei a temporada aqui realmente impactada pela realização de que vou precisar pagar por privacidade e segurança digital no curto prazo. E não (ainda) por temer vigilância institucional ou política, como previu Snowden aqui em 2014.

Quem vai nos fazer assinar estes serviços num primeiro momento é a própria “sombra” da humanidade. Aquela voz que fala em algumas orelhas e elas escutam, por motivos nada nobres como a ganância, a manutenção de privilégio ou poder, a insegurança… O crime digital é só mais uma manifestação destes comportamentos, que não é de hoje que a gente vê por aí.

Isso me fez pensar que a sobrevivência da espécie humana, na Terra ou em qualquer outro lugar, depende menos de tecnologia e mais da gente preservar nosso lado luz. De conseguir, com ferramentas, ajuda e autoconhecimento, gerenciar a sombra.

Se cada um de nós fizer isso um pouquinho, a gente vai ver acontecer os avanços que realmente importam: seremos pessoas, famílias, países e uma sociedade melhor.






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