Recentemente, tive a oportunidade de vislumbrar o futuro durante a última edição do SXSW, em uma experiência singular e plural. A minha jornada terminou com uma certeza que permeou todo o festival: a transformação digital mudará todos os aspectos de nossas vidas.

Desde a automatização da força de trabalho até a segurança cibernética no blockchain, da Internet of Medical Things (IoMT) aos diagnósticos médicos baseados em data analytics, da criação de múltiplas identidades materializadas em diferentes avatares que servirão a propósitos distintos no metaverso, até as novas linguagens que já estão transformando a forma como produzimos e consumimos informações. Os avanços tecnológicos alterarão nossa percepção da realidade, entrelaçando de forma intrínseca o mundo digital e o físico. Essas evoluções oferecem oportunidades infinitas e, ao mesmo tempo, importantes desafios.

Vale lembrar que a sensação de deslumbramento diante de tantas novidades é comum em todas as edições do maior festival de inovação do mundo. Afinal de contas, o novo sempre nos inspira.

E de onde vem tanto ímpeto para transformar nossa vida? A incerteza das mudanças não é capaz de retardar o fluxo da inovação, com ideias que hoje se apresentam como perguntas sem respostas.

Desde o domínio do fogo pelos nossos ancestrais, à conquista do homem em forjar metais, do surgimento da escrita ou da eletricidade — a história da humanidade é repleta de inovações que tornaram hábitos nas sociedades passadas completamente impensáveis hoje. Inclusive, em uma das palestras sobre o futuro, o apresentador disse que as futuras gerações acharão uma barbaridade as cirurgias terem sido feitas por médicos humanos.

O constante progresso promovido pelos avanços tecnológicos supriu ou suprimiu muitas necessidades que hoje consideramos básicas, ou até desnecessárias, e potencializou muitas outras.

Esse impulso e coragem para desbravar o desconhecido são características essencialmente humanas, que nos trouxeram até aqui e que, provavelmente, como Elon Musk já disse, nos levarão muito longe – vivendo em outros planetas, como Marte.

E o que está por trás do movimento incessante de melhorias e do progresso? A resposta pode parecer ingênua, mas acreditem, não é: a busca pela felicidade. Vou explicar.

Felicidade é um tema que tem sido muito explorado, com diversas abordagens. Durante o SXSW, fui surpreendida com tantas possibilidades e me lembrei de Eduardo Giannetti, um economista e filósofo brasileiro que aborda a felicidade de maneira complexa, mas também muito clara. Ele sugere que a felicidade pode ser vista como um equilíbrio entre três forças: bem-estar emocional, realização pessoal e ética. O bem-estar emocional está relacionado ao sentimento de satisfação e plenitude, enquanto a realização pessoal se refere à sensação de estarmos progredindo. Já a ética se relaciona ao nosso senso de propósito e significado na vida, bem como à nossa capacidade de contribuir positivamente para algo maior do que nós mesmos.

No contexto das novas invenções, é importante refletir sobre o significado das três forças que compõem a felicidade e ter atenção ao uso responsável da tecnologia. Sem essa preocupação e cuidado, é muito provável que, apesar das evoluções, não alcançaremos a felicidade. Mas o que isso significa de fato?

Significa que precisamos estar atentos aos desafios que surgem junto às inovações, pois a essência da geração de informações, respostas ou soluções via as novas tecnologias acontece encontrando padrões em dados. Para evitarmos o aumento da exclusão de grupos menos privilegiados, o crescimento de soluções que contenham vieses ou estereótipos e a redução do atendimento de vulnerabilidades, precisaremos aprender a usar as ferramentas de machine learning e inteligência artificial generativa de forma a reforçar o nosso aspecto humano e sensível, identificando pontos de comportamento discriminatórios e lacunas de representação da diversidade para reprimir o preconceito.

É preciso estar alerta à forma como utilizamos as novas tecnologias, para que os algoritmos sejam projetados de maneira justa e os dados sejam representativos. Precisamos usar as inovações para acelerar a normatização de narrativas mais inclusivas na sociedade, e não o contrário.

Outro aspecto importante a ser considerado é o uso da IA no reconhecimento mais rápido e assertivo de pontos de vulnerabilidade na sociedade, como em sistemas e processos corporativos ou governamentais que possam afetar negativamente grupos marginalizados. Ou ainda, a aplicação da tecnologia para medir e demonstrar eficientemente o impacto e os benefícios de iniciativas voltadas para os aspectos social e ambiental. Aqui o objetivo é que estratégias e soluções de mitigação de problemas sejam o novo normal, ganhando escala e sendo incorporadas no dia a dia de empresas e governos.

O que percebi no SXSW é que estamos prestes a ter à nossa disposição um conjunto muito potente de ferramentas que nos tornarão mais poderosos do que nunca, para fazer acontecer o que desejarmos, projetando novas necessidades humanas e moldando a realidade do jeito que idealizamos.

Será então que a tecnologia nos trará felicidade nesse contexto?

A resposta a essa pergunta é muito simples: está em nossas mãos e dependerá de nós. A solução está em nos preocuparmos em ser atentos, cuidadosos e conscientes para o uso da tecnologia de forma correta, tornando o mundo um lugar melhor em termos de prosperidade e paz. Assim, poderemos alcançar a felicidade.





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