Para trocar mensagens e informações, quase ninguém pensa em sair para comprar um selo e endereçar uma carta. Assim como discos de vinil e fitas cassete, eles se tornaram itens de colecionadores e entusiastas de objetos que remontam a tradições, gostos e tecnologias do passado. 

No entanto, no caso dos selos – celebrados no Brasil neste 1º de agosto -, o aspecto histórico é ainda mais presente e significativo para entender o que cada nação escolhe representar como símbolo de um tempo.

Em 1840, a Inglaterra não poderia ter outro signo mais importante para correspondências do que a Rainha Vitória, cuja efígie ilustra o primeiro selo do mundo, nomeado de Penny Black. No Brasil, o primeiro selo surgiu em 1843 e foi chamado de “Olho de Boi” pelo formato do valor indicado para a postagem da correspondência.

Foi só em 1846, que o então imperador do Brasil, D. Pedro II, passou a ilustrar os selos oficiais, que foram produzidos nos Estados Unidos – e esse detalhe já é o suficiente para levantar questões acerca das condições da época.

“Muito se discute sobre o motivo de não se ter representado o monarca num primeiro momento, e há até uma teoria de que não se queria ‘manchar’ a imagem do imperador em uma representação  considerada menor, e de pouco valor artístico. Mas, muito provavelmente, isso ocorreu porque, na época, o Brasil não tinha máquinas de impressão potentes o suficiente para reproduzir retratos”, afirmaram os Correios.

O Brasil tem tradição na filatelia (colecionismo de selos) e registra revistas de colecionadores que datam de 1895, com clubes de filatelistas na Alemanha e na França, que buscam e guardam selos produzidos no país. Quem conta essa história é Diego Salcedo, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um filatelista por “acidente” de infância:

“Eu fui mexer no armário dos meus pais, num local proibido, e encontrei cartas de família. O que me chamava a atenção eram as cores desses pedacinhos de papel — ou embaixadores de papel, já que os selos viajam o mundo inteiro representando o país que o emitiu”, diz Salcedo. 

“O selo é um documento produzido pelo estado. Um historiador pode utilizar o selo para falar sobre alguma efeméride, algum evento, acontecimento, relembrar personalidades, estabelecer tensões – antes das Guerras das Malvinas, entre Argentina e Inglaterra, cada país emitia um selo com o mapa das Ilhas Malvinas destacadas junto ao país”, explica o professor. Na era Vargas, por exemplo, era possível acompanhar a flutuação da inflação pelo preço impresso nos selos postais, exemplifica.

No fim do século XIX, teve início a tendência mundial de se representar eventos, comemorações e outras simbologias de forma impressa nas correspondências. No Brasil, os primeiros selos comemorativos são de 1900, alusivos aos 400 anos do Descobrimento.

Nos últimos anos, até quando Salcedo acompanhou, o Brasil produzia de 10 a 15 milhões de selos postais anualmente. Os Correios não divulgaram a atual tiragem, nem a receita adquirida pela venda dos marcadores, mas ressaltaram que, atualmente, há um movimento cada vez maior para incluir temas de relevância para além da figura de governantes e figuras públicas.

O destaque atual vai para a diversidade, em especial de mulheres e da cultura afro-brasileira. A escritora Carolina Maria de Jesus, consagrada por sua obra “Quarto de Despejo”, e Aracy de Carvalho Guimarães Rosa – chefe da sessão de passaportes que permitiu a entrada de judeus no país mesmo após a proibição de Getúlio Vargas, em 1936, e esposa de João Guimarães Rosa – são algumas das representações especiais mais recentes dos Correios.

 

Os selos também são responsáveis por estabelecer certas relações extrafronteiriças. Em 2020, a pandemia de coronavírus foi tema de selos em mais de 150 países, diz Diego Salcedo. “Isso demonstra também um discurso de união, de diplomacia da filatelia”, afirma. Foram ilustrados trabalhadores essenciais, uma lista de sintomas comuns da doença e a luta travada pelos pacientes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), entre outros.

Também são comuns selos comemorativos das Olimpíadas. O Brasil resolveu homenagear, em 2020, o centenário da 1ª medalha de ouro conquistada nos Jogos, vencida pelo tenente Guilherme Paraense na prova da pistola rápida.

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Selos criados em 2020 com a temática do combate à pandemia de coronavírus
Foto: Museu dos Correios

 

Como se cria um selo?

Até hoje, os Correios permitem que todos os brasileiros sugiram ideias para a emissão de selos especiais. Basta acessar o sistema “Sua Ideia Pode Virar Selo” para iniciar o processo de submissão, sendo necessário informar o ano que deseja que o selo ocorra.

Em seguida, especialistas em filatelia dos Correios fazem uma seleção das propostas mais relevantes e que estão de acordo com os critérios de uma portaria criada especificamente para isso. Por fim, as ideias seguem para a votação da Comissão Filatélica Nacional, composta por representantes dos Correios e de outros órgãos federais. Essa votação acontece anualmente e elege 8 motivos para o ano seguinte.

Para a seleção de 2021, foram analisados mais de 600 pedidos. A Comissão decidiu homenagear a profissão de gari, o centenário da descoberta da Insulina, o Ano Internacional para eliminação do Trabalho Infantil, diferentes queijos do Brasil, o sesquicentenário da Lei do Ventre Livre, a obra “O Auto da Compadecida”, a relevância das rendas brasileiras e representantes da diversidade da fauna do país.

Nas redes, que angariam a maior parte da comunicação contemporânea, os Correios comemoraram o Dia Nacional do Selo já na sexta-feira (30). “Está fazendo 178 anos, mas continua jovem e moderno”, brincou o perfil da empresa.

Na visão de Diego Salcedo, para quem os pequenos símbolos “são detalhes de um acontecimento enorme”, é justamente a infinitude de acontecimentos, pessoas e memórias que transformam o selo em um documento, um item de colecionador e um contador de histórias único.

 



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