Voltar do SXSW sempre leva uma certa euforia – uma mistura de empolgação e desespero. É inevitável refletir sobre como tecnologias como Inteligência Artificial, Metaverso e Computação Quântica impactarão nossas carreiras, nossos relacionamentos. Nossas vidas.

E a minha expectativa em relação ao futuro é ainda maior na véspera de me tornar pai pela primeira vez. Sim, em menos de dois meses, Celine chegará ao mundo! Que especial será nascer em um momento tão único da humanidade.

Futuristas e desenvolvedores acreditam que o mundo nunca viveu transformações tão profundas como as que estão por vir. E não é novidade dizer que o que vivemos hoje é apenas o começo…

Como futuro pai, sou apenas um estagiário esforçado, tentando me preparar para o projeto mais importante da minha vida: cuidar, apoiar e inspirar. Mas é impossível conter a ansiedade ao ver se delinear um futuro tão diferente da realidade que conhecemos.

O que ensinar? O que será importante? Como guiá-la para os melhores caminhos? Essas e muitas outras perguntas não pararam de girar em minha mente nesses seis dias intensos de conteúdo.

Duas temáticas me chamam atenção quando penso no desenvolvimento da Celine: relacionamentos e habilidades (e não sei qual delas parece mais intrigante).

Relacionamentos

Cresci ouvindo meus pais falarem sobre boas companhias e hoje acredito fortemente na expressão que diz que somos a combinação das cinco pessoas com quem mais convivemos – já parou para pensar nisso?

É curioso pensar nesses conceitos ao projetar o futuro de Celine.

Não é difícil imaginar que ela crescerá interagindo com filtros de realidade aumentada e convivendo com influenciadores sem filtros, se relacionando com avatares de todo o mundo e descobrindo o mundo por meio de conteúdos gerados por GPTs. Até ela crescer, é possível que grande parte das vozes que ouvirá será sintética.

Vai saber se a melhor amiga dela não será uma IA. Por que não? Se desenvolvemos sentimentos por outras espécies, personagens e bichinhos de pelúcia, choramos ou gritamos com um filme ou livro: por que não se relacionar com uma IA? 

Afinal, quem liga se é real? Pensando bem… o que é real? Mais do que isso. O que podem ser consideradas boas companhias?

Habilidades

Se a Revolução Industrial ampliou a capacidade do trabalho, agora estamos fazendo o mesmo com o conhecimento, elevando-o a patamares muito mais elaborados do que a mente humana poderia alcançar. Se naquele momento mecanizamos as habilidades, hoje as digitalizamos. Habilidades digitais são:

. Programáveis – é possível configurar a ferramenta para obter o resultado desejado. Editar a criação permite refinar até encontrar um resultado surpreendente.

. Combináveis – é possível conectar diferentes habilidades, do rascunho ao desenho e do desenho ao 3D. Rapidamente, essas ferramentas abrirão APIs e aprenderão a interagir entre si de maneira autônoma, usando tarefas umas das outras.

. Aprimoráveis – estão em constante evolução, acelerando a transformação da sociedade. A cada nova versão novas possibilidades surgem para tornar os resultados mais realistas e avançados.

Elas serão responsáveis para tornar a evolução exponencial. Mas o que isso significa para nossas vidas? 

As ferramentas de IA permitem que cada pessoa realize uma ampla gama de atividades. Não é difícil imaginar marcas com produtos incríveis geridas apenas por uma pessoa.

Isso muda nossa relação com o trabalho, nos leva a abandonar a visão linear e especializada, onde cada pessoa foca em uma etapa da cadeia de valor e abre espaço para papéis mais horizontais, permitindo atuar em diferentes áreas conforme nosso desejo ou necessidade.

Assim como nos filmes de ficção científica que o avô dela adorava, as novas ferramentas de IA nos proporcionam “just in time skills” (que pode ser traduzido por habilidades adquiridas a qualquer momento). E, em um cenário onde a capacidade de produzir coisas incríveis se torna cada vez mais acessível, todos precisaremos nos tornar “estrategistas” — sensíveis para ler as variáveis e precisos para alcançar nossos objetivos.

Se eu puder dar uma dica para Celine e para todos que viverão esta nova era, diria que três qualidades serão fundamentais. Todos precisaremos ser:

. Generalistas e multifuncionais – se você não tiver conhecimento de base para usar essas ferramentas, elas não criarão valor para você. As ferramentas de linguagem generativa facilitam a criação e produção, mas é necessário entender as diversas variáveis envolvidas em cada atividade para obter bons resultados.

. Racionais e articuladores – é preciso saber onde se quer chegar, criar relevância e conectar pessoas e oportunidades. 

. Criativos e engajados – quando todos tivermos as mesmas habilidades de pesquisa e criação, o que fará a diferença será o empenho, a criatividade, a busca pelo novo e a capacidade de fazer acontecer.

No final, é mais difícil do que parece: “good prompts are hard to write”.

Para Ian Beacraft, CEO Signal and Ciper, a era da criatividade generalista chegou. Foto SXSW

Ian Beacraft disse em sua palestra que acredita que hoje é o momento da mais fantástica revolução do conhecimento na história humana. “Há muitas coisas incríveis acontecendo, mas também muitas assustadoras“. Mas, como disse outro palestrante cujo nome já não me lembro, “o futuro virá, você goste ou não“. E para mim, como pai, parece mais interessante abraçá-lo do que resistir.

Seja bem-vinda, Celine, será uma jornada incrível.






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