Todos os anos a futurista e pesquisadora Amy Webb sobe ao palco do SXSW (South by Southwest) para lançar o “Tech Trends Report”, um dos mais profundos e comentados relatórios quantitativos de tendências. Tive o privilégio de estar na plateia acompanhando a palestra e absorvendo as análises sobre inteligência artificial, robótica, tecnologias web3, cibersegurança, além de como a privacidade e a ética na tecnologia precisam ser efetivamente implementadas para evitarmos uma catástrofe futura, juntamente com a sustentabilidade,  diversidade, equidade, e novos modos de trabalho e de lideranças inclusivas, dentre tantos outros temas emergentes.

O tamanho da fila fora do auditório comprovou que a palestra “Emerging Tech Trends” foi uma das mais esperadas pelo público, principalmente entre os brasileiros que formaram a maior parte da plateia. Para mim, este foi um momento marcante e talvez o mais interessante do festival. Embasada em dados coletados pelo seu instituto, a futurista alertou o público presente sobre as possíveis oportunidades e emergências que surgirão nos próximos anos – e até sobre possíveis desastres que podem resultar do mal uso dessas novas tecnologias. A que mais me chamou a atenção foi sobre a AISMOSIS, uma possível fusão da sociedade com a inteligência artificial, que Amy prevê que chegue cedo, ainda nessa década, e vai ser a consequência da explosão no uso de LLMs.

No relatório, ela também destacou que a web descentralizada pode trazer mais autonomia para consumidores e empresas. Setores como saúde, alimentação, logística, comunicação e energia são alguns que irão ver a expansão do uso da Web 3.0 e sentirão sua evolução nos próximos anos. As tecnologias envolvidas no uso de dados que estão envolvidas com conceitos de privacidade e ownership serão  ponto chave para o desenvolvimento deste cenário e para o correto funcionamento das redes de logística, integrada por identidades digitais interagindo com smart things.

A internet invisível deve ser superada, e, à medida que as previsões de Amy forem se concretizando, a sociedade exigirá métodos mais seguros de identificação e formas eficazes de validar seus dados pessoais e transações, protegendo-os por princípio. Estas mudanças serão transformadoras, ainda que possamos enxergar muito pouco disso acontecendo por enquanto.

Depois de alertar ao fato de que os futuristas não podem ser apenas “espectadores de tendências”, mas atuarem em relação a elas, Amy reforçou que “a internet como a conhecemos acabou”, ao comentar sobre a evolução dos dados e da circulação de informação. Ela afirma que se antes nós pesquisávamos na internet, a tendência é de que com a evolução da inteligência artificial a própria internet nos pesquisará. Um modelo muito mais descentralizado e com os controles de privacidade pode ser construído, nos dando a chance de ter um futuro onde nós não só interagimos com AIs, mas também as controlamos. Concordo com o fato de que essas tecnologias devem se tornar milhares de vezes mais poderosas do que agora e, de que precisamos nos debruçar sobre suas consequências, como por exemplo um aprofundamento das desigualdades sociais e danos causados por AIs construídas com dados excludentes ou errados.

Prever o futuro é uma tarefa difícil, especialmente em um mundo em constante transformação. O trabalho da Amy, embasado em dados e com metodologia, é uma tentativa que tem grandes chances de estar certo. Como ela mesma apontou, acredito que mais relevante do que tentar prever os inúmeros pontos individuais dessas transformações, será observar quais serão essas convergências. O que isso quer dizer? Bom, a inteligência artificial como a conhecemos é a grande força multiplicadora do inimaginável. A IA não só habilita novas tecnologias como também pode se transformar em um aumentador de capacidades dos indivíduos, negócios e a sociedade de maneira exponencial.

Cada vez mais seremos os guias das AIs com nossos dados de identidade, ambas áreas em desenvolvimento contínuo. Toda transformação digital exige também uma mudança de paradigmas. O reforço e incremento de medidas de cibersegurança e privacidade devem ser aplicadas dentro dessa equação para um futuro mais confiável e escalável. Ou seja, precisamos pensar que um panorama positivo só será possível se as pessoas tiverem controle sobre a sua própria narrativa por meio da soberania sobre seus dados.






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