Aos 47 anos, Patrícia (*), foi diagnosticada com câncer de mama, mas seguiu o tratamento indicado pelos médicos e teve remissão da doença. No entanto, conforme indicam os oncologistas, a paciente deve fazer exames de acompanhamento a cada seis meses para avaliar um eventual retorno da doença, que pode atingir até 740 mil pessoas neste ano, conforme estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA).

Em um desses retornos, o sistema de tomografia de tórax -que conta com um algoritmo de inteligência artificial- identificou não uma célula cancerígena, e sim um tromboembolismo pulmonar, tipo de obstrução das vias do sistema respiratório. Essa captação fez com que o caso fosse priorizado e que, de forma rápida, ela recebesse o tratamento adequado para evitar complicações.

“[A tomografia] não é um exame dedicado a identificar um tromboembolismo pulmonar, embora o câncer aumente a chance de ter essa condição”, explica Bruno Aragão, coordenador médico de inovação do Grupo Fleury (FLRY3), em entrevista ao InfoMoney. “Normalmente, o prazo de entrega deste tipo de exame é de cerca de 2 dias, mas o algoritmo identificou o embolismo, repassou à médica, que conduziu o caso em algumas horas”, lembra.

O sistema que captou essa alteração foi desenvolvido pela startup israelense AiDoc e implantado em laboratórios de diagnósticos do grupo Fleury, uma das principais redes de saúde integrada do Brasil. Desde que foi incluído, em 2022, 24 mil exames já foram analisados pelo aplicativo, sendo que ao menos 812 pessoas tiveram sua saúde impactada positivamente com o resultado.

Segundo Aragão, essa é só uma das inúmeras inovações que a inteligência artificial levou para dentro dos laboratórios de diagnósticos nos últimos anos. Ao contrário de outras tecnologias, que continuam a ser analisadas, a IA (inteligência artificial) já se provou aliada dos profissionais de saúde em diversos aspectos, da descoberta de doenças à priorização das necessidades de cada enfermo.

“Nos últimos anos, o tema da inteligência artificial tem chamado muito a atenção. Quando falamos sobre tecnologia em saúde, temos que tomar muito cuidado com o efeito hyper [em referência à animação momentânea do mercado], que depois não se concretiza. Mas acredito que estamos em uma fase de aplicação da IA já madura, em que é possível ver o valor prático no cotidiano”, pontua o médico.

Apesar disso, a avaliação é que, por se tratar de um setor que mexe diretamente com a vida humana, a adesão das tecnologias deve ser feita em tempos diferentes do visto em outros setores. Por isso, em muitos casos, antes de se testar alguma novidade, o método tem de ser aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Saúde), que dá o efetivo aval de inserção dentro dos laboratórios.

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“As pessoas associam inovação com velocidade, com rápidas implantações, mas ela tem outras facetas dentro da área de saúde. Costumo dizer que é uma inovação paciente, com tempo para validar a tecnologia, e, então, extrair o máximo de valor dessa novidade”, destaca Bruno.

Busca por tecnologias é ativa, mas profissionais de saúde estão no centro

Embora os laboratórios saibam das ferramentas que precisam para melhorar o atendimento aos seus clientes, nem sempre é possível desenvolvê-las internamente. Portanto, as empresas mantêm um relacionamento ativo com o ecossistema de inovação global, com o objetivo de avaliar e adquirir soluções que contribuam para suas operações.

Outro gigante do setor de saúde, a rede Dasa (DASA3) conversou com ao menos 300 startups em 2022, um contato que gerou 40 conexões e 14 provas de conceito. Um dos resultados foi o investimento feito via Corporate Venture Capital na GoGood, uma startup que promove atividade física, pensando em investir na chamada jornada do usuário, que garante a cobertura das diferentes demandas de um cliente. O valor da transação não foi divulgado, mas a startup faturou R$ 4,6 milhões no ano anterior ao investimento e estima-se que a Dasa tenha comprado 10% da startup avaliada em R$ 50 milhões.

“Atuamos em todos os horizontes de inovação, desde melhorias incrementais até novos modelos de negócios”, comenta o médico Felipe Kitamura, diretor de inovação aplicada e inteligência artificial da Dasa. “Temos startups em toda cadeia de cuidado, e todas as áreas de negócios são estimuladas a se relacionarem com elas”, complementa.

O executivo ressalta, contudo, que a busca por novidades sempre coloca o profissional de saúde no centro, pensando em dar a ele ferramentas tecnológicas que auxiliem no diagnóstico de um problema. Dentro da rede, há uma equipe médica específica que analisa os exames e contata o médico que fez o pedido, quando o exame para uma doença identifica outra diferente.

“Um médico do núcleo de assessoria liga para o profissional responsável pelo pedido e informa que a tomografia para cálculo renal, por exemplo, identificou precocemente um tumor no fígado. A equipe oferece ajuda e garante que o paciente não fique desassistido”, comenta.

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Segundo ele, essa antecipação é bastante importante porque, ainda no caso do cálculo renal, se as dores cessam, o doente normalmente demora ou nem volta para pegar o resultado do exame. E, se tratando de um tumor, quanto antes ele for descoberto e tratado, maiores as condições de remissão da doença, avalia Kitamura.

“Os resultados não se dão apenas pelo algoritmo de inteligência artificial. É uma peça chave no processo, mas existe a dependência de uma cadeia posterior para que ele funcione. “Uma vez que identifiquei que o paciente precisa de um próximo passo, e o médico que pediu o exame não tem condição de receber, eu preciso ter estruturas disponíveis para atender essa pessoa depois do diagnóstico, e isso já é feito diretamente pelos hospitais que compõe a rede Dasa”, pontua.

(*): Por questões regulatórias, o nome da paciente foi omitido desta reportagem.



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