Os zumbis podem ser identificados pelos fungos que brotam de seus corpos: um emaranhado de espinhos pontiagudos, um jardim em miniatura de corpos frutíferos semelhantes a cogumelos.

Esses parasitas fúngicos agem como marionetistas, comandando e posicionando os zumbis para infectar comunidades inteiras.

É a premissa de “The Last of Us“, uma série de videogames e agora um programa da HBO, que divide a controladora Warner Bros.

Cientistas consultados pela CNN revelam que esta é uma cena que acontece na vida real todos os dias em todo o mundo.

Os fungos zumbis são reais?

Os criadores de “The Last of Us” disseram que se inspiraram em uma sequência da série de documentários “Planeta Terra” da BBC, que mostra uma formiga infectada com um fungo que sequestra seu cérebro, forçando-a a subir em uma árvore e pendurar-se acima do chão da floresta. Lá, o fungo digere o corpo da formiga de dentro para fora e libera uma chuva de esporos para criar mais zumbis.

Quando “Planeta Terra” foi lançado em 2006, acreditava-se que o fungo da formiga zumbi fazia parte do grupo Cordyceps, mas estudos genéticos desde então o colocaram em outro grupo de fungos parasitas de insetos, Ophiocordyceps.

Existem mais de 100 espécies conhecidas de Ophiocordyceps que infectam uma grande variedade de insetos, incluindo borboletas, mariposas e besouros, e pelo menos 35 que realizam “controle mental” em seus hospedeiros.

“Conhecemos apenas 35, mas nossas estimativas vão para mais de 600 espécies, esperando para serem descritas”, disse João Araújo, curador assistente de micologia do Instituto de Botânica Sistemática do Jardim Botânico de Nova York.

Fungos podem infectar e controlar os seres humanos?

Embora os fungos zumbis sejam reais e numerosos, Araújo e outros não estão preocupados com a possibilidade de Ophiocordyceps infectar pessoas.

“Eles são superespecíficos para cada espécie”, disse Charissa de Bekker, professora-assistente do departamento de biologia da Universidade de Utrecht, na Holanda.

Cada uma das espécies conhecidas de Ophiocordyceps ataca um determinado inseto, e essa especificidade é uma faca de dois gumes. “Eles têm um maquinário muito refinado para interagir com seus hospedeiros e fazer coisas realmente interessantes, como mudar o comportamento, mas não podem nem pular de uma espécie para outra”, muito menos para um organismo tão distante quanto um ser humano, Charissa explicou.

A imunidade dos humanos ao Ophiocordyceps é evidente em quantas interações com os fungos até agora se mostraram inofensivas. As pessoas em partes da Ásia usam um tipo (Ophiocordyceps sinensis) em medicamentos tradicionais, e os cientistas que estudam os fungos não foram infectados.

“Eu inspiro esporos de Ophiocordyceps o tempo todo porque trabalho com eles de perto”, disse Araújo, que permanece não zumbi.

Embora possamos estar a salvo do Ophiocordyceps, David Hughes, um dos cientistas que consultou o videogame, disse que há uma lição a ser aprendida com “The Last of Us”, que é essencialmente uma história sobre ameaças existenciais à humanidade.

“A maior ameaça global é a mudança climática”, disse Hughes, que mudou seu foco de pesquisa para longe das formigas zumbis e agora é especialista em Segurança Alimentar Global na Universidade do Estado da Pensilvânia.

Doença fúngica e mudanças climáticas

“The Last of Us” levanta a questão de que a mudança climática pode estimular adaptações de fungos a habitats mais quentes. É o caso do fungo infeccioso Candida auris, descoberto em 2009 e desde então encontrado em mais de 30 países.

“Em um mundo em aquecimento, os fungos também precisam se adaptar a um clima mais quente”, disse Charissa.

E você pode imaginar então, se suas temperaturas ideais de crescimento se tornarem mais altas e mais próximas de nossas temperaturas corporais, pode ser mais provável que, no futuro, tenhamos mais infecções fúngicas em humanos do que vemos agora

Charissa de Bekker, professora do departamento de biologia da Universidade de Utrecht

Uma pandemia fúngica generalizada é improvável, com base em como as infecções fúngicas tendem a se espalhar em humanos, de acordo com Dimitrios Kontoyiannis, vice-chefe da divisão de medicina interna do MD Anderson Cancer Center da Universidade do Texas e líder de seu Centro de Pesquisa em Micologia Médica.

No entanto, Kontoyiannis observou que as doenças fúngicas são mais difíceis de tratar do que as infecções bacterianas porque os fungos, como os humanos, são feitos de células eucarióticas e compartilham as mesmas estruturas celulares básicas. Isso torna muito difícil encontrar um tratamento “que atinja o fungo e não os humanos”, disse ele.

Um futuro mais quente com mais infecções fúngicas colocaria em risco especialmente as pessoas com sistema imunológico enfraquecido, acrescentou Kontoyiannis.

Hughes disse que espera que as pessoas que se envolvem com “The Last of Us” vejam os paralelos com os desafios da vida real que nosso mundo enfrenta, incluindo a mudança climática e as novas ameaças à saúde que o acompanharão.

“A coisa toda é um estudo em tempo real sobre o que prestamos atenção e sobre o que agimos”, disse ele.



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